Crônicas

Carta de um pai – Salmo 139

Filho,

Eu te examino com carinho. Eu te conheço.

Sei quando você senta e quando você levanta.
Eu entendo seus pensamentos.
Vigio com cuidado o seu andar e o seu deitar.
Conheço cada um dos seus caminhos.

Antes que você diga algo, eu já sei o que é.
A minha mão está em volta de você, te protegendo.

Meu conhecimento é maravilhoso!
Tão grande que sua mente limitada não consegue entender.

Para onde você pode ir sem meu espírito?
Para onde fugirá da minha presença?

Se você subir ao céu, ali eu estarei.
Se for até o inferno, ali também eu estarei por você.

Se você pudesse voar, e fizesse seu ninho no lugar mais alto do mundo,
Ou se pudesse viver sem ar e resolvesse morar no fundo do mar,

Ali também minha mão te guiaria e sustentaria.

Se um dia você disser:

“Deixe-me nas trevas. Quero viver na escuridão da noite.”

Saiba que nenhuma treva é escura demais para mim.
Eu posso tornar a noite em dia, e as trevas em luz.

Eu te fiz.

Escolhi seu tipo de sangue, a cor de seus olhos, de sua pele…
Modelei cada parte do seu corpo no ventre de sua mãe.

Você deve me louvar por que eu te fiz lindo.
Minhas obras são maravilhosas, e você sabe muito bem.

Nenhuma parte do seu corpo foi feita por acidente no ventre da sua mãe.

Os meus olhos te viram quando você era só um feto.
Então, eu escrevi cada dia da sua vida.

Isso mesmo. Eu planejei todos os dias da sua vida antes mesmo deles existirem.

Como são preciosos meus mandamentos, filho!
Como são maravilhosos!
Seu valor é infinito como os grãos de areia.

Você poderia passar a vida inteira meditando neles e, ainda assim, todos os dias haveria algo novo.

Eu sei que você odeia os perversos.
Sei também que não gosta de viver com homens sanguinários, que só fazem o mal.
Eu sei que você odeia quem me odeia e se ira quando alguém se levanta contra mim.

Eu sei, filho.

Eu te examino com carinho. Conheço seu coração.
Te provo e conheço seus pensamentos.

Eu verei se há algo mal em você.
E de uma coisa você pode ter certeza:
Eu vou te guiar pelo caminho que leva ao céu.

(baseado no salmo 139)

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Vale a pena

Imagine-se num lugar distante. As ruas são de ouro. As calçadas, de prata. Não há guerras. Não há lutas. O pecado é só uma lembrança. Nada te aterroriza. Não há ladrões. Não há inimigos. Ninguém mais quer te derrubar. Você não precisa matar um leão por dia. Agora, você é perfeita. Não há luta interior. Não há mentira ou falsidade. E isso é eterno.

As melhores pessoas do mundo estão ao seu redor. Olhe à esquerda. Aquele não é Paulo, o apóstolo? Veja Martin Luther King. Todos juntos. Espere um pouco, isso parece uma festa. E C. S. Lewis está lá dentro. É possível vê-los. Mas estão diferentes. Seus corpos estão cheios de glória. A pele deles é tão lisa quanto de um bebê. Quanto aquele seu bebê. Que um dia você matou ainda no ventre. Aquele pelo qual você sempre lutou para se perdoar. Sempre se perguntou como ele seria. Sempre quis saber como ele agiria. Cristo a perdoou. Ele te redimiu. Você foi salva. Jesus te amou mais do que você se amou.

Ei, quem é essa criança se aproximando? Porque o rosto lhe é tão familiar? Não, não é possível! Por que ela está pegando na sua mão? Espere. Ela vai dizer alguma coisa…

– Mamãe, eu estava te esperando.

Você rompe em lágrimas. Meio que por instinto simplesmente deixa ela te conduzir. E ela te leva à festa. Seu tio que foi diácono naquela igrejinha a  vida inteira está ali. Sua avó, que você perdeu quando tinha apenas seis anos, também. E estão muito felizes. Você os cumprimenta soluçando. Você está em êxtase. Até que Ele entra na sala. Sua presença exala majestade e amor. O clima é de adoração, profunda e respeitosa. Você, em prantos, não consegue se segurar. Corre até os braços do Pai por saber quem lá está. É Ele. Jesus Cristo. O próprio Deus vivo. Que te separou. Que te salvou. Que te amou…

Espere.

Vale a pena viver sua própria vontade?

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O dia mau

chove-chuva

Essa manhã o sol não apareceu. Eu olhei para o céu e ele não estava lá. Talvez as nuvens o tenham escondido. Talvez o vento tenha-o levado pra longe. Eu não posso vê-lo. Eu não sei onde ele está. Mas ainda assim o dia está claro.

Às vezes a chuva cai. E me deixa preso em casa. Às vezes, o vento sopra forte. E eu tenho que segurar em alguém. Às vezes, uma árvore cai. E ela não tem em quem segurar.

O inverno parece mais longo que o verão. O outono e a primavera são um copo meio cheio /meio vazio. E eu corro pra casa. E eu tento não pensar em nada. Mas sou um morador de rua. E o frio e a solidão são meus amigos imaginários. Meus amigos reais estão longe. Talvez em casa. Talvez, sozinhos.

Mas quando a hipotermia parece ser inevitável o sol nasce radiante. A TV fala que a temperatura é baixa. Mas o termômetro do meu coração diz o contrário.

E eu planto uma árvore. E meus inimigos imaginários somem. Meus companheiros não estão mais sozinhos. Eu estou com eles. O dia mau passa. E eu aproveito cada segundo de calor. Pois sei que no tempo determinado o inverno vai voltar. Mas ainda assim o dia vai estar claro.


ilustra do amigo de fé, irmão e camarada @szilag.

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Telemarketing

Eu publiquei esse texto em outra vida em um blog já falecido. Eu gostaria de estar postando de novo e espero de coração que vocês venham a estar gostando.

telemarketing-2

- Bom dia.
- Bom dia, eu gostaria de estar falando com o Sr. João.
- Pois não?
- Seu João, é do Banco Dinheiro Forte, a gente estamos fazendo uma promoção incrível do seguro descanse em paz.
- Não, não minha querida, obrigado..
- Mas você sabe como é essas coisas seu João. Um dia a gente estamos saudáveis, no outro acordamos morto.
- Obrigada minha filha, mas…
- “Mas” digo eu seu João, você não deixou nem eu ler a apresentação.
- Oito e meio da manhã do domingo?
- Mais um motivo! Eu tô trabalhando em pleno domingo oito e meia.
- Eu entendo, mas é que…
- “Mas é que” nada seu João. Deixa pelo menos eu ler o iscripiti.
- Oh meu Deus! Tá bom, já que você faz tanta questão, lê.
- Eu sou do banco Dinheiro Forte, a gente estamos com uma incrível promoção do seguro “Descanse em Paz”, pra você morrer de qualquer coisa, menos de preocupação. Isso porque a sua família vai estar contando com um super benefício e se você vier a obitar (do verbo óbito) a gente vai estar oferecendo uma exclusiva assistência no caso de morte. Tudo isso por apenas 19,99 por mês que vai estar sendo descontado direto da sua própria conta. É pra morrer em paz ou não é?
- Acabou?
- Acabou sim senhor.
- Posso desligar?
- Mas seu João, você não viu que beleza?
- Obrigado mesmo, é que não estou pensando em morrer tão cedo.
- Não seu João você não entendeu nada, eu vou estar lendo de novo pra o senhor estar entendendo…
- Pelo amor de Deus, o português!
- Português? Que português? Ele tem seguro?
- Não, não querida, liga pra ele e esteja oferecendo o seguro descanse em paz, quem sabe ele estará comprando, e eu estarei voltando a dormir, e nós estaremos todos nos felicitando. O numero é 7070-7070.
- Seu João?
- Isso, obrigado, tchau.
- Agora, pelo jeito que o senhor está falando eu estou reconhecendo. É seu João o encarregado, né? Seu João Antônio. Era um teste né? Haha. Eu percebi mesmo desde o começo. Mas fala a verdade eu fui bem, hein?! E você, que cliente mais chato. Haha. Mas fala a verdade se esse número é de algum português amigo seu mesmo? Pode ligar?
- Isso mesmo querida. Sou eu mesmo. Você esta de parabéns! Pode estar ligando sim.
- Obrigado Seu João, esteja tendo um bom dia!
- Você também querida, esteja tendo um bom dia.
- Esse seu jeito de falar é inconfundível mesmo.
- E você também estará indo pro mesmo caminho. Parabéns!
- Quê isso. Eu vou estar ligando lá, viu?
- Não foi nada.
- Tchau.
- Tchau.

João Alberto, advogado, volta pra cama pensando: “Dessa vez eu dei sorte”.

*ilustração carinhosamente feita pelo meu companheiro de labuta Hélder Nóbrega.

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